II.

fevereiro 27, 2018

by marat safin

Apesar da ansiedade começar a ser levada mais a sério, a verdade é que a maior parte das pessoas confundem ansiedade com nervosismo. São coisas completamente diferentes. É normal sentirmos nervosismo em situações que são mais desconfortáveis para nós, no entanto, ansiedade é um estimulo muito diferente e caracterizado patologicamente de forma diferente.
Infelizmente ainda há muitas ideias erradas sobre a ansiedade, como curar e como prevenir. Acontece que quando uma pessoa é diagnosticada com ansiedade é-lhe recomendado a utilização de ansiolíticos ou anti-depressivos dependendo do caso. Nunca vou desvalorizar a importância da medicação em casos estritamente necessários. Acho que casos são casos e devem ser calculados minuciosamente, até porque as pessoas são diferentes.

Quando eu comecei a ter casos mais severos de ansiedade, consultei na altura a minha pediatra que ao ver a situação frágil em que me colocava diariamente receitou-me um ansiolítico para casos de insónias ou então de muito stress (como exames na escola, concertos, etc). A esses casos a utilização de um SOS parece-me relevante, mas mesmo assim continuo com a opinião que é possível contornar a utilização de medicamentos. Se não for estritamente necessário, é possível utilizar determinadas técnicas de relaxamento para travar o momento da ansiedade. Acredito que aprender a estabilizar a respiração em momentos de tensão e treinar a concentração são duas das ferramentas mais essenciais para combater a ansiedade. Não acho que solucionem tudo por si só. Porque também penso que para utilizar essas técnicas corretamente exista a necessidade de conhecer o próprio corpo e mente. Quando falo de mente… Considero que é preciso ter uma perspetiva da própria consciência, ou seja, saber entender os próprios pensamentos e quando eles são prejudiciais. Se eu souber que o meu cérebro ativa as minhas glândulas supra-renais quando tenho determinado pensamento, devo sair desse próprio pensamento e observá-lo. Sei que ele existe, mas distancio-o do meu próprio ser. Não acho que eu seja os meus próprios pensamentos. A ansiedade não sou eu. Então o que quero dizer é que sempre que começo a ficar ansiosa porque tenho um exame, sempre que tiver pensamentos negativos sobre algo que vai acontecer, eu vou sair do meu estado ansioso para consciencializar os meus próprios pensamentos. Esses pensamentos vão perdendo a sua força quando acreditamos que eles são fruto das nossas inseguranças, medos, transtornos, anseios… Mas é um facto que a teoria é sempre mais fácil. Não estou a escrever a fórmula para a ansiedade acabar, até porque é muito mais complexa que isso. A ansiedade pode não ser apenas pensamentos presentes, mas sim um conjunto de acontecimentos do passado que fazem estimular em excesso esses mesmos pensamentos. Não digo que o passado seja uma prisão, mas sim uma dica do que está a acontecer com o nosso corpo. Não somos o nosso passado e não devemos colocar o futuro na equação. Apenas viver o presente, como bem mais precioso. E aí está o maior problema da sociedade atual: viver o presente. Deixamos de viver o presente porque passamos a vida preocupados com o que vai acontecer, com o que temos de fazer, o que não estamos a fazer… Todas essas preocupações são envolvidas numa camada de ansiedade que nos prejudica severamente. Vai ser sempre difícil descolar desse tipo de pensamentos, mas começar por concentrar as energias positivas naquilo que fazemos no momento é um passo grande para um caminho mais calmo. 

Isto tudo devem ser promessas que fazemos ao nosso próprio corpo. O nosso corpo coloca-nos em estado de alerta em momentos pequenos de tensão porque o nosso cérebro assim comanda. Se achamos que esses momentos não precisam de tal estímulo é porque algo está errado. É porque estamos a ser comandados pelo nosso cérebro inconscientemente. 


fevereiro 23, 2018




oxidised (24 x 36cm, oil on canvas) by samantha li


Durante a nossa vida acabamos por ser confrontados com diversas adversidades. Todos temos os nossos problemas, os nossos demónios. Procuramos sempre formas de criar mecanismos de defesas para os nossos medos e anseios, mas nunca chegamos realmente a ultrapassa-los. Utilizamos máscaras para que se tornem um pouco menos reais. Mascaramos as nossas inseguranças com o aparente estado de calma e uma preparação qualquer para todo o tipo de conteúdo sensível.  

A minha ansiedade surgiu desde que me lembro como pessoa, desde que comecei a ter consciência da minha existência. Não me lembro de não ser ansiosa, não me lembro de não ter medo das doenças ou de não ser interessada por elas, não me lembro de não ter ataques de pânico provenientes de variadas situações. Ao longo dos anos fui criando mecanismos para acalmar a ansiedade. Comecei por não ter tantas crises de pânico, no entanto, mudava consoante as fases que passava e a pressão, stress que elas continham. Aliás, os ataques de pânico deixaram de ser tão frequentes no meu dia-a-dia, porque comecei a ter mais consciência do meu corpo, do que acontecia realmente. Percebi o que acontecia biologicamente e deixei de afirmar que ia ter um ataque cardíaco ou outras doenças igualmente graves e fatais.
O que acontece realmente com o nosso corpo é que ativamos no nosso cérebro o medo ou um estado de alerta e isto faz com que determinadas hormonas (como a adrenalina) sejam libertadas no sangue pelas glândulas supra-renais. Isto em situações de perigo funciona perfeitamente, pois a adrenalina tem um propósito de defesa e de criar um estado de alerta no nosso corpo. Já para uma atividade de stress do dia-a-dia torna-se cansativo o corpo criar esse estado consecutivamente.

A sensação de ataque cardíaco descrita pela maior parte das pessoas que sofrem de ansiedade é muito real. São momentos em que as mensagens que chegam ao nosso cérebro são muito próximas da morte. Por exemplo, começar por ter ritmo cardíaco acelerado, dificuldade em respirar, tonturas, vertigens, sudação, dor no peito, formigueiros, dor no braço esquerdo, dor de cabeça, tremores, sensação de irrealidade, medo de ficar maluco, náuseas e calafrios. São muitos os sintomas e já senti praticamente todos em diferentes crises de ansiedade. Estes sintomas são associados a várias doenças, mas no momento em que decorre o ataque de ansiedade as pessoas têm por hábito vivenciarem a ideia de ataque cardíaco.
A partir do momento que conhecemos o nosso corpo, sabemos quando começamos a ter um ataque de pânico e a fazer força para o cérebro relaxar. Relembrar que não é um ataque cardíaco e sim um ataque de pânico. Vai passar muito brevemente e é possível controlar ou impedir que chegue ao pico máximo da crise.
Quando comecei a conhecer um pouco melhor o meu corpo, deixei de sentir estes sintomas todos em simultâneo. Aliás, quando sinto o meu corpo a fraquejar, tento mandar sinais ao meu cérebro que vai ficar tudo bem. Muitas vezes é difícil isso acontecer até porque a razão da ansiedade pode ser muito forte e ser complicada de contornar.

A minha ansiedade limita a minha vida e o que acontece é que nem sempre é fácil controlar o nosso cérebro. Há dias em que ele parece insistir no mesmo drama e cria toda uma cadeia de dolorosas palpitações e sensações estranhas. Quando um ataque de ansiedade está para acontecer há uma arma essencial para a sua prevenção: a respiração.
Não há nada mais importante do que ter controlo na nossa respiração, saber como utilizá-la e estar principalmente atento a ela. Prestar atenção quando inspiramos e expiramos faz com que em primeiro lugar, tenhamos a noção da sua existência; segundo, concentramos a nossa atenção apenas na respiração ao ponto de conseguir distrair o nosso cérebro de qualquer tipo de explosão de stress, adrenalina ou ansiedade. É verdade que não é fácil prestar atenção à respiração quando estamos com mil pensamentos na nossa cabeça prestes a desencadear um ataque, mas é possível com muita força de vontade, treino e concentração.



A ansiedade tornou-se um acontecimento na maior parte dos millenials, numa sociedade acelerada e com obrigações difíceis de realizar. Mas é importante falar dela. Está presente e deve ser combatida. O combate da ansiedade deve ser uma espécie de ensino anatómico e psicológico, incluindo todos os jovens a perceberem o seu corpo sem ficarem sujeitos a uma indústria farmacêutica (sem tirar o seu valor e importância). A medicina convencional deve aplicar as suas medidas de prevenção e aplicação, no entanto, há uma parte muito importante a ser introduzida: como funciona o nosso cérebro e como controlá-lo. Somos nós que controlamos o nosso cérebro. É esse o maior segredo.